Pentágono – De acordo com o The Washington Post, centenas de funcionários do Google enviaram, nesta segunda-feira (27), uma carta ao CEO Sundar Pichai solicitando que a empresa impeça o Departamento de Defesa dos Estados Unidos de utilizar sua inteligência artificial (IA) em atividades confidenciais.
A mobilização ocorre dois meses após a Anthropic, concorrente no setor, ser excluída de negociações com o Pentágono ao se opor a exigências semelhantes. O documento reúne mais de 600 assinaturas, incluindo diversos profissionais ligados ao braço de IA da empresa, o DeepMind.
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Segundo a reportagem, os funcionários pedem que o Google não celebre contratos com a Defesa que permitam o uso restrito da tecnologia, argumentando que esse tipo de acordo limitaria a transparência sobre a aplicação das ferramentas desenvolvidas pela companhia.
Na carta, os trabalhadores afirmam: “Queremos ver a IA beneficiar a humanidade; não queremos vê-la sendo usada de maneiras desumanas ou extremamente prejudiciais. Isso inclui armas autônomas letais e vigilância em massa, mas vai muito além.”
Eles acrescentam: “A única maneira de garantir que o Google não seja associado a tais danos é rejeitar quaisquer cargas de trabalho classificadas. Caso contrário, tais usos podem ocorrer sem nosso conhecimento ou poder para impedi-los”.
O documento também alerta para os impactos já observados: “Vidas humanas já estão sendo perdidas e liberdades civis estão em risco, tanto no país quanto no exterior, devido ao uso indevido da tecnologia que estamos ajudando a construir”, escreveram, sem detalhar qual tecnologia estaria envolvida.
Os signatários mencionam ainda uma reportagem do The Information que aponta negociações em andamento entre Google e Pentágono para um acordo nos moldes do firmado com a OpenAI.
A carta pede que a empresa recuse qualquer trabalho classificado que envolva uso restrito, como forma de evitar que sua tecnologia seja aplicada em situações que possam violar direitos civis e humanos.
Procurado pelo Washington Post, o Google não comentou. O Olhar Digital também entrou em contato com a companhia e aguarda resposta.
Uso militar da IA levanta debate
O envio da carta ocorre em um momento em que a inteligência artificial ganha protagonismo em conflitos contemporâneos, intensificando o debate sobre o papel das empresas e de seus funcionários na definição dos limites do uso militar da tecnologia. Representantes do Pentágono afirmam que precisam de liberdade para empregar IA comercial “para todos os usos legais”, uma expressão que, segundo autoridades, permite certa flexibilidade dentro das normas e procedimentos militares dos Estados Unidos.
Apesar disso, especialistas em inteligência artificial consideram que tais garantias não são suficientes para evitar abusos. No ano passado, por exemplo, o modelo Claude, desenvolvido pela Anthropic, foi rapidamente incorporado a sistemas militares norte-americanos para análise de dados e identificação de possíveis alvos, de acordo com o Washington Post.
Em fevereiro, no entanto, a relação entre a startup e o Departamento de Defesa entrou em conflito após a empresa tentar incluir cláusulas contratuais que impedissem o uso da tecnologia para vigilância em massa ou em armas autônomas letais.
Essa disputa ampliou o escrutínio sobre outras companhias do setor, como Google e OpenAI, que também mantêm relações com o Pentágono.
Ainda em fevereiro, pouco depois da saída da Anthropic, a OpenAI firmou contrato com o Departamento de Defesa para fornecer IA voltada a operações confidenciais.
O CEO e cofundador da empresa, Sam Altman, afirmou confiar que o acordo impede o uso da tecnologia para vigilância em massa dentro dos Estados Unidos ou para equipar armamentos autônomos letais.
Histórico de controvérsias no Google
O debate sobre uso militar de IA não é novo dentro do Google. Em 2018, a empresa decidiu não renovar um contrato com o Pentágono que previa a utilização de sua tecnologia para reconhecimento de objetos em imagens captadas por drones. A decisão veio após pressão interna de funcionários, que organizaram uma petição contra a parceria.
Na época, a companhia declarou que não empregaria sua IA em armas ou sistemas de vigilância. Nos anos seguintes, no entanto, o Google ampliou sua busca por contratos com o setor militar dos Estados Unidos.
Mais recentemente, a empresa flexibilizou suas próprias diretrizes sobre o uso da tecnologia para fins militares e de vigilância. Em dezembro do ano passado, fechou um acordo com o Departamento de Defesa envolvendo o uso do modelo Gemini.
(Com informações de Olha Digital)
(Foto: Reprodução/Freepik/Fielder123)












