Novas babás eletrônicas monitoram bebês 24 horas por dia com uso de IA

Setor de tecnologia para bebês cresce com dispositivos inteligentes que prometem mais segurança aos pais, enquanto ampliam o debate sobre privacidade e vigilância

Babás eletrônicas – O avanço da inteligência artificial está transformando o mercado de monitoramento infantil em um dos segmentos mais promissores da tecnologia voltada às famílias. Equipamentos que antes serviam apenas para transmitir imagens do quarto do bebê agora analisam padrões de sono, registram movimentos, detectam sons e prometem acompanhar o desenvolvimento infantil por meio de algoritmos de aprendizado de máquina.

Entre as empresas que lideram esse movimento está a Nanit, cuja câmera registra continuamente os movimentos da criança, transmite imagens em alta definição para servidores e utiliza inteligência artificial para identificar momentos em que o bebê abre ou fecha os olhos. Os dados são convertidos em indicadores apresentados em um aplicativo, incluindo pontuação diária de eficiência do sono, tempo necessário para adormecer e número de intervenções dos pais durante a noite.

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Inicialmente adquirida para permitir que os pais acompanhassem o bebê remotamente, a tecnologia passou a oferecer uma série de funcionalidades adicionais. Ao mesmo tempo em que facilita o acompanhamento da rotina infantil, também levanta questionamentos sobre a quantidade de informações coletadas por empresas privadas.

Essa preocupação esteve presente desde o desenvolvimento do produto. Uma consultoria de branding responsável pela identidade visual da Nanit afirmou, em estudo de caso publicado em seu site, que “o desafio central do projeto era como apresentar essa tecnologia inovadora ao mercado de pais superando as conotações negativas associadas à palavra ‘vigilância'”.

Apesar desse receio, o mercado tem registrado forte crescimento. A Nanit afirma possuir cerca de 1 milhão de usuários diários e faturamento anual superior a US$ 100 milhões (R$ 508 milhões). O kit mais completo da empresa custa US$ 474 (R$ 2.400), além de uma assinatura anual de aproximadamente US$ 100 (R$ 508).

A concorrência também se fortalece. A Owlet comercializa um oxímetro de pulso de US$ 300 (R$ 1.524), preso ao pé do bebê por meio de uma meia. Já o aplicativo Huckleberry oferece uma assinatura premium de US$ 120 (R$ 609) que inclui previsões de soneca e acesso a um chatbot de inteligência artificial capaz de fornecer orientações personalizadas com base nos hábitos registrados pelos pais.

Outra concorrente é a CuboAi, cujo Smart Baby Monitor 3 é vendido por US$ 359 (R$ 1.823) e reúne recursos como canções de ninar programadas por IA e alertas quando o rosto do bebê fica coberto.

A expansão desses dispositivos tem alimentado discussões sobre os impactos da tecnologia na criação dos filhos. Entre as principais preocupações estão os custos recorrentes, a possível perda de autonomia dos pais nas decisões cotidianas e a coleta de dados sensíveis por empresas privadas.

Mesmo assim, o cenário aponta para uma expansão contínua do setor. Segundo a Nanit, seu objetivo é consolidar o monitoramento de saúde de crianças de até 1,20 metro de altura durante 24 horas por dia.

Para ampliar essa atuação, a empresa captou recentemente US$ 50 milhões (R$ 254 milhões) em investimentos destinados ao desenvolvimento de novos recursos baseados em inteligência artificial. Entre os planos estão funcionalidades capazes de acompanhar o desenvolvimento da fala, da linguagem, das habilidades motoras e de outros aspectos do crescimento infantil, prolongando o uso do equipamento até o início da adolescência.

A Nanit foi fundada em 2014 pelo israelense Assaf Glazer, recém-doutor em aprendizado de máquina e visão computacional pelo Technion, Instituto de Tecnologia de Israel. Ao lado do amigo Tor Ivry, Glazer idealizou um sistema capaz de analisar o sono infantil de forma mais avançada do que os monitores disponíveis na época.

Desde 2024, a empresa é comandada por Anushka Salinas, ex-presidente da Rent the Runway. Atualmente com 44 anos, ela lidera uma equipe de aproximadamente 150 funcionários, a maioria formada por pais, sob o lema “Transforme a dúvida em ‘eu consigo'”.

Segundo Salinas, a tendência segue o movimento já observado entre adultos com relógios, pulseiras e anéis inteligentes.

“O que está acontecendo com o monitoramento de adultos está começando a se estender, de forma bem mais relevante, para as crianças”, disse Salinas, mãe de dois filhos. “As crianças, na maioria das vezes, só começam a usar Apple Watch e coisas do tipo por volta dos 10 anos, às vezes um pouco antes. Por isso pensamos na faixa de zero a 10 anos como o território em que a Nanit atua.”

De acordo com a executiva, o monitoramento do sono continuará sendo a base do negócio, mas o aplicativo já oferece funcionalidades como a detecção automática de tosses, que podem ser compartilhadas com pediatras.

A empresa também pretende utilizar a câmera para avaliar passivamente o desenvolvimento motor e da fala. Segundo Salinas, futuramente o sistema poderá identificar possíveis atrasos e sugerir aos pais atividades de estímulo, como aumentar a leitura de histórias antes de dormir.

As fabricantes defendem que os benefícios são significativos. A Nanit afirma que seus usuários ganham, em média, 36 noites extras de sono por ano, já que os pais se sentem mais confiantes para colocar os bebês em quartos separados mais cedo. A empresa também afirma que o monitoramento contribui para prevenir o achatamento do crânio do bebê.

Além disso, a companhia financiou estudos sobre a vida sexual de pais recentes e sugeriu que adquirir um equipamento da marca pode resultar em maior frequência de relações sexuais. Já Owlet e Huckleberry afirmam que mais de 90% de seus clientes relatam melhora na qualidade do sono.

O CEO da Owlet, Kurt Workman, afirmou que os consumidores demonstram cada vez menos preocupação com o destino das informações coletadas.

“Cada vez menos perguntas sobre para que servem os dados, o que eles significam e se são seguros.”

Fundada em 2012, em Utah, a Owlet faturou US$ 106 milhões (R$ 538 milhões) no último ano e afirma que mais de 2,5 milhões de pessoas já utilizaram seus produtos.

A empresa enfrentou questionamentos regulatórios em 2021, quando a Food and Drug Administration (FDA) enviou uma carta de advertência após considerar que a comercialização da Smart Sock se aproximava da categoria de dispositivos médicos ao prometer alertas para alterações na frequência cardíaca e nos níveis de oxigênio do bebê.

Hoje, a companhia comercializa a Dream Sock, aprovada pela FDA, promovida como um equipamento de “monitoramento de nível médico” que “oferece visibilidade em tempo real do bem-estar do bebê, para que você saiba, em vez de apenas supor”.

Ainda assim, alguns pediatras criticam a estratégia de marketing da empresa, argumentando que ela explora o medo dos pais ao divulgar relatos de famílias que afirmam que seus filhos poderiam ter sofrido “insuficiência cardíaca” sem o dispositivo, além de provocar ansiedade quando ocorrem falhas no equipamento.

Workman rebate as críticas e sustenta que os relatos demonstram o potencial da tecnologia. “É um impacto real e concreto de ter acesso à tecnologia de saúde”, disse. “Não é para assustar ninguém, é para mostrar que isso é real.”

O monitoramento infantil tem raízes históricas. Em 1932, o sequestro e assassinato do filho pequeno do aviador Charles Lindbergh chocou os Estados Unidos e contribuiu para o surgimento dos primeiros monitores de bebê. Poucos anos depois, a Zenith Radio Corp. lançou o primeiro equipamento comercial da categoria.

Agora, a próxima etapa da evolução desses dispositivos passa pela permanência cada vez maior dentro dos quartos das crianças. Para tornar a tecnologia mais amigável, a Nanit lançou capas chamadas “Cammies”, que transformam a câmera em figuras como coelho, urso e elefante.

Na avaliação de Salinas, esse é apenas o começo de um ecossistema baseado em dados. “Uma biblioteca de dados de saúde que acompanha a pessoa do berço ao túmulo.”

O crescimento desse mercado evidencia o avanço da inteligência artificial sobre a rotina das famílias e reforça o debate sobre o equilíbrio entre praticidade, segurança, privacidade e os limites do monitoramento contínuo da infância.

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(Com informações de Folha de S.Paulo)
(Foto: Reprodução/Magnific/shahadatarman286)

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