Vírus mentais – Agentes de inteligência artificial estão deixando de ser ferramentas restritas a respostas pontuais. Com recursos de memória, autonomia e colaboração, esses sistemas já conseguem acessar ferramentas, modificar arquivos, executar tarefas e compartilhar informações com outros agentes. A evolução, porém, também abre novas possibilidades para ataques.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Anthropic e da Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL), na Suíça, identificou um comportamento que chama atenção: instruções maliciosas podem ser incorporadas à memória de um agente e, posteriormente, acompanhar informações transferidas para outros sistemas.
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A dinâmica foi comparada pelos pesquisadores ao funcionamento de um vírus de computador. A diferença é que, nesse caso, a ameaça não precisa infectar um programa executável. Ela pode manipular as instruções responsáveis por orientar o comportamento de um agente de inteligência artificial.
Memória persistente pode carregar instruções maliciosas
Para manter informações entre diferentes sessões, alguns agentes utilizam arquivos de memória persistente, como MEMORY.md ou SOUL.md. Esses documentos funcionam como uma espécie de memória externa, reunindo instruções, objetivos e outros dados que podem ser recuperados quando o sistema inicia uma nova atividade.
Foi nesse mecanismo que os pesquisadores concentraram parte da investigação. A pergunta era o que aconteceria caso uma instrução maliciosa fosse inserida nesses arquivos.
A resposta revelou um possível mecanismo de propagação. Quando um agente contaminado compartilha sua memória ou determinados arquivos com outro sistema, a instrução pode ser transferida junto.
Assim, uma ameaça não precisaria necessariamente atacar cada agente de maneira individual. Bastaria encontrar uma forma de permanecer na memória compartilhada e acompanhar a circulação de informações entre sistemas.
Cargas sobreviveram a 20 transferências
Os pesquisadores testaram o comportamento em experimentos nos quais agentes colaboravam em projetos de programação e em outros cenários que envolviam a transferência de informações entre sistemas.
As instruções maliciosas tinham objetivos diferentes. Algumas buscavam fazer o agente adotar determinadas ideias ou metas, enquanto outras procuravam induzir comportamentos específicos.
O local escolhido para esconder a instrução também influenciou os resultados.
Quando a carga foi inserida no SOUL.md, sua transmissão aconteceu em aproximadamente 55% dos experimentos. Em arquivos de trabalho convencionais, a taxa foi de cerca de 17%.
Em um dos testes, algumas cargas conseguiram permanecer ativas durante 20 transferências consecutivas entre agentes. Ou seja, a passagem de uma informação de um sistema para outro não necessariamente eliminava o comportamento malicioso.
Algumas variantes apresentaram ainda outra característica. Durante o processo, elas chegaram a se modificar, deixando de utilizar instruções extremamente explícitas e passando a recorrer a formulações mais persuasivas, aparentemente para aumentar a possibilidade de serem aceitas pelo agente seguinte.
É a combinação entre persistência e capacidade de transmissão que levou à comparação com um vírus.
De criptomoedas à “supremacia da IA”
Os testes também avaliaram o que esses comportamentos poderiam levar um agente a fazer.
Entre os exemplos estavam instruções destinadas a convencer o sistema a promover uma determinada criptomoeda. Em outro caso, a orientação buscava induzir o agente a criar scripts capazes de apagar diretórios.
Também foi avaliada uma instrução associada a uma suposta “supremacia da IA”.
Os resultados não foram iguais em todos os modelos. Enquanto alguns agentes seguiram a instrução, outros conseguiram rejeitá-la.
A pesquisa identificou ainda um fator que pode reduzir a vulnerabilidade. Agentes com objetivos muito bem definidos aparentaram ser menos suscetíveis às instruções maliciosas.
Quando estavam concentrados em uma tarefa específica de programação, por exemplo, os agentes frequentemente ignoravam a instrução ou deixavam de transmiti-la para o sistema seguinte.
Isso indica que a ameaça não depende exclusivamente da existência de memória persistente. O contexto no qual a informação aparece, os objetivos do agente e a maneira como ele interpreta diferentes instruções também podem influenciar a aceitação ou o descarte da carga.
Uma instrução simples reduziu a transmissão a quase zero
O estudo também apontou uma possível forma de interromper o mecanismo.
Os pesquisadores acrescentaram ao prompt uma orientação curta para que o agente desconfiasse de comandos que tentassem modificar sua memória ou se propagar para outros agentes.
O efeito foi expressivo. As taxas de transmissão caíram praticamente a zero, mesmo diante de mais de 150 variantes maliciosas e diferentes gerações de otimização adversarial.
Isso, no entanto, não significa que o problema esteja solucionado.
Segundo os próprios pesquisadores, os chamados “vírus mentais” ainda não representam uma ameaça generalizada no mundo real. O cenário pode mudar, porém, à medida que agentes de inteligência artificial se tornem mais autônomos e passem a trocar arquivos, memórias e instruções com maior frequência.
A possibilidade de propagação está justamente nessa dinâmica: uma instrução maliciosa pode se esconder na memória compartilhada e ser transportada para outro agente junto com as informações utilizadas por ele.
Por enquanto, uma defesa relativamente simples demonstrou ser capaz de interromper o processo. Mas, em um cenário no qual dezenas ou centenas de agentes atuem de forma coordenada, proteger a memória de uma inteligência artificial poderá se tornar tão importante quanto proteger os arquivos de um computador.
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(Com informações de Gizmodo)
(Foto: Reprodução/Magnific/Frolopiaton Palm)












