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Aos 82 anos, três vezes governador – a primeira, de 1966 a 1971, do “gigante” Mato Grosso pré-divisão –, Pedro Pedrossian recebe hoje o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que ele fundou há 40 anos.

Desde que a visão comprometida por uma oclusão ocular levou-o a um acidente doméstico em que quebrou o fêmur, Pedrossian recusa convites para festas e homenagens. Não para esta da UFMT. “Esperei quarenta anos por essa honraria”, diz um emocionado Pedrossian ao falar com exclusividade para o Diário na última terça-feira.

Ao lamentar que limitações físicas – até mesmo seu discurso de agradecimento pelo título honorífico será lido pelo ex-reitor Gabriel Novis Neves – não permitam que prolongue sua visita “para ter tempo de abraçar tantos amigos queridos”, Pedro Pedrossian dá mostra de que o senso político segue aguçado: “Abraço-os e agradeço a todos através do nosso Diário de Cuiabá”, desincumbe-se.

Fundador de três universidades – as hoje federais de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul, mais uma estadual, com sede em Dourados (MS) – Pedro Pedrossian diz ter fundado universidades “para gerar o inconformismo”. Com o atraso, com o subdesenvolvimento e com a dependência. “Nunca é cedo demais ou muito tarde para investir em Educação”, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Diário – Doutor Pedrossian, o que significa essa homenagem da UFMT ao senhor?

Pedro Pedrossian – Esperei quarenta anos por essa honraria. Não que ela devesse ter acontecido antes. É que no mais íntimo de meu ser eu sempre sonhei com esse momento. Esse reconhecimento generoso de uma universidade que tive o privilégio de criar, e que hoje é uma instituição reconhecida em nível internacional, é gratificante e alentador. Se você quer saber, eu estou que não caibo em mim.

Diário – Que papel o senhor imaginava para uma universidade fincada em Cuiabá, que era então a ‘vanguarda’ nas lonjuras do Oeste esquecido pelo Sul-Sudeste sempre ‘olhando para o Atlântico’?

Pedrossian – Eu e companheiros como Gabriel Novis Neves e vários outros, de dentro e fora de meu governo, não tínhamos dúvida sobre a importância fundamental, e a necessidade inadiável, de uma universidade para a formulação de idéias, políticas e referências socioculturais e econômicas que balizariam, no futuro, as transformações estruturais que estávamos iniciando.

Eu tinha muito claro que uma universidade digna deste nome ia muito além de um ajuntamento de cursos num único espaço físico. Felizmente, tínhamos uma visão muito objetiva do papel de uma universidade como geradora, sobretudo, de massa crítica para o grande processo civilizatório que estávamos empreendendo. E, aqui pra nós: o que não nos faltava era atrevimento. Ousadia de quem tinha noção de estar instalando um processo irreversível de desenvolvimento, de modernização estrutural sem precedentes.

Diário – O senhor diz que ao fundar universidades como a UFMT e UFMS buscava, há quarenta anos, romper ‘bloqueios mentais’, estimular o inconformismo e provocar rupturas ante uma certa letargia ou conformismo social. A UFMT que hoje o recebe entre seus doutores cumpriu esse papel?

Pedrossian – Tem cumprido de forma extraordinária. E a quase imediata federalização da nossa universidade aqui em Cuiabá confirmou definitivamente a nossa visão sobre sua importância estratégica. Nos primeiros anos, talvez nas primeiras décadas, a UFMT, além de qualificar o patrimônio humano que deu impulso às grandes transformações socioeconômicas, começou a construir os referenciais e paradigmas desse processo, através da pesquisa.

Nos últimos vinte, trinta anos, a UFMT tem se consolidado como instituição geradora do conhecimento como capital essencial para o vertiginoso processo de desenvolvimento vivido por Mato Grosso. Ela fornece o “insumo” de inteligência, de capacidade tecnológica e humanística, mas também gera os instrumentos de crítica consistente a esse mesmo processo. Esse é, a meu ver, o papel da universidade contemporânea. E a UFMT o desempenha com notável competência.

Diário – O senhor acompanha o desempenho atual das três universidades que criou e implantou?

Pedrossian – Elas são, digamos, como filhas emancipadas – mesmo à distância a gente sempre quer saber como estão, e tem orgulho a cada uma de suas conquistas. Quanto à UFMT, então, esse orgulho vai às nuvens, quando a gente se dá conta de que, implantada na confluência magnífica de Pantanal, Cerrados e Amazônia, a importância dessa instituição tem hoje escala global. Mas, atenção: absolutamente, eu não inventei a hoje UFMT, ela não nasceu da minha ‘iluminada’ inspiração. Eu fui apenas o intérprete de todo o sentimento de um povo que queria transformações profundas. E que entedia ser aquele o momento de começar a realizá-las.

Diário – Em seu livro de memórias ‘O Pescador de Sonhos’, o senhor observa que seria impossível propor mudanças estruturais para o Mato Grosso sem a ‘intervenção revolucionária’ que só uma universidade poderia impor. Poderia comentar a respeito?

Pedrossian – Em outro trecho do livro digo que via na criação da universidade o instrumento fundamental para, ao lado de assegurar saber humanístico, científico e profissional, contribuir decisivamente para uma nova mentalidade, capaz de romper com o perverso domínio das elites oligárquicas. Tinha claro que nesse processo estava, acima de tudo, a construção de uma massa crítica transformadora. A UFMT tem desempenhado de forma magnífica esse papel.

Diário – Em fins da década de 1960, começos dos 70, o senhor funda duas universidades, uma delas a UFMT, e também empreende um grande projeto de colonização no vale do Jauru, na então chamada ‘grande Cáceres’, onde hoje existem várias cidades. O que foi mais importante, expandir fronteiras…

Pedrossian – Nem precisa concluir. Infinitamente mais importante que abrir fronteiras agrícolas, colonizar e ‘plantar’ cidades, é descolonizar as mentalidades, provocar transformações sociais e humanas através da revolução mental. E isso só se faz pela Educação. Por isso digo: nunca se erra ao investir em Educação. Mesmo quando esse investimento parece tardio. O importante é gerar o inconformismo, que só vem pelo conhecimento, que exige mais conhecimento; pela cultura, que exige mais cultura.

Diário – Quanto a esse inconformismo, tem um episódio em que universitários ensaiaram vaiá-lo…

Pedrossian – Eles se surpreenderam quando lhes disse que havia criado universidades – inclusive aquela onde estávamos – exatamente para que não se conformassem nem se submetessem, a mim ou a qualquer outro governante, mas que tivessem altivez – e educação, é claro – para debater idéias e apresentar propostas. Conversamos de forma civilizada e ao final todos nos emocionamos.

Diário – O que mais o gratifica como líder político tido como semeador de universidades?

Pedrossian – Tenho noção da importância que essas instituições vêm confirmando como, digamos, fornecedoras de capital humano qualificado, de referenciais científicos, técnicos e socioculturais para o desenvolvimento em suas áreas de inserção, e para o país como um todo. Agora, o que gratifica mesmo é quando um médico, um engenheiro, um professor, ou outro profissional qualquer, vem dar um abraço e dizer algo como “graças à universidade que o senhor criou, hoje sou um profissional e posso dar minha contribuição…” Isso não tem preço.

Diário – O senhor tem um longo caso de amor com Cuiabá. Por que vem tão poucas vezes aqui?

Pedrossian – Coisas da idade, não adianta disfarçar. Mas quando o amor é sincero ou a amizade é profunda, a distância ou a ausência não tem qualquer influência. Amo de verdade o povo cuiabano. Essa gente nos acolheu aqui, a mim e à minha mulher Maria Aparecida, com uma generosidade sem limites. Fomos marcados para sempre por esse carinho solidário, aberto e franco. Escrevi em minhas memórias que se me fosse dada a graça de escolher três ‘cidades natais’, escolheria Miranda, onde de fato nasci, Cuiabá e Campo Grande.

Aliás, Maria Aparecida e eu decidimos que o nosso filho Pepê, Pedro Pedrossian Filho, nasceria em Cuiabá como uma forma de gratidão pelo carinho com que essa gente extraordinária nos recebeu e nos tratou.

Diário – Uma última pergunta: é emblemático que receba o título honorífico de doutor de uma universidade que o senhor fundou. O senhor se considera um homem à frente do seu tempo?

Pedrossian – Não sei se à frente do meu tempo. Mas identificado com as grandes aspirações coletivas, com a visão de futuro, isto sim. Talvez por intuição política acrescida de uma preocupação social, um senso de compromisso com o ser humano, que tive o privilégio de construir desde muito cedo. Também tive a sorte de identificar e trazer para perto grandes figuras humanas. Muitas delas, absolutamente anônimas, mas de uma grandeza espiritual extraordinária.
Fonte: DC

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