Habilidades humanas – Durante anos, as discussões sobre inteligência artificial se concentraram no avanço das máquinas, na automação do trabalho e nos impactos tecnológicos sobre a sociedade. Agora, pesquisadores começam a inverter essa lógica e analisar uma nova questão: quais características humanas ainda permanecem inalcançáveis para a IA.
A neurocientista britânica Hannah Critchlow, da Universidade de Cambridge, está entre os especialistas que investigam justamente esse cenário. Em seu livro The 21st Century Brain, a pesquisadora defende que competências consideradas secundárias por muito tempo podem se tornar essenciais nas próximas décadas.
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Segundo Critchlow, capacidades como empatia, criatividade, flexibilidade mental e tolerância à incerteza devem ganhar ainda mais importância à medida que sistemas de inteligência artificial assumirem tarefas técnicas e operacionais de maneira cada vez mais eficiente.
A pesquisadora chama atenção para um aspecto curioso: apesar da transformação tecnológica acelerada, o cérebro humano praticamente não sofreu alterações estruturais significativas desde os tempos pré-históricos. Há inclusive evidências arqueológicas indicando uma leve redução do tamanho do cérebro humano ao longo dos últimos 10 mil anos.
Ainda assim, a neurocientista afirma que a mente humana possui potencial pouco explorado. Para ela, os avanços da neurociência moderna podem ajudar no desenvolvimento de habilidades cognitivas que normalmente passam despercebidas na rotina.
Critchlow começou a escrever o livro antes da popularização recente da inteligência artificial generativa, mas já percebia sinais de que a tecnologia provocaria mudanças profundas na sociedade. A partir disso, passou a refletir sobre uma questão central: se a inteligência artificial foi criada a partir do entendimento do cérebro humano, esse mesmo conhecimento também poderia ser usado para fortalecer a inteligência biológica.
Inteligência emocional ganha importância
De acordo com a pesquisadora, a inteligência emocional deixou de ser vista apenas como uma habilidade complementar no ambiente acadêmico e profissional. Estudos citados por ela apontam que empatia e regulação emocional influenciam diretamente a qualidade das relações pessoais, o bem-estar e até o desempenho nos estudos.
Embora fatores genéticos tenham influência nessas características, Critchlow afirma que elas também podem ser desenvolvidas ao longo da vida.
Entre os trabalhos mencionados está a pesquisa conduzida pelo psicólogo Jamil Zaki, da Universidade de Stanford. O pesquisador defende práticas ligadas à autocompaixão e ao entendimento das próprias emoções como ferramentas capazes de fortalecer circuitos cerebrais relacionados à autorregulação emocional.
Perguntas simples, como “por que estou me sentindo assim?” ou “o que posso fazer para lidar melhor com isso?”, podem produzir impactos importantes no cérebro e ampliar a capacidade de empatia em relação aos outros.
Pesquisas apontam relação entre intestino e comportamento social
Outro ponto destacado nas pesquisas reunidas por Critchlow envolve o microbioma intestinal. Estudos recentes indicam que bactérias presentes no intestino podem influenciar emoções, comportamento social e até tendências altruístas.
Um dos experimentos mencionados foi conduzido pela pesquisadora Hilke Plassmann. Durante semanas, voluntários saudáveis consumiram pré e probióticos enquanto cientistas analisavam alterações no comportamento dos participantes.
Os resultados mostraram que indivíduos que desenvolveram maior diversidade intestinal passaram a demonstrar atitudes mais altruístas em comparação ao grupo placebo. Entre os comportamentos observados estava a maior disposição para renunciar a parte do próprio dinheiro em favor de maior igualdade entre outras pessoas.
Os mecanismos exatos dessa relação ainda são investigados pelos cientistas, mas existem hipóteses relevantes. O intestino possui uma extensa rede neural ligada ao cérebro por meio do nervo vago, conexão frequentemente associada a sensações intuitivas conhecidas como “frio na barriga” ou “pressentimentos”.
Além disso, pesquisas apontam que bactérias intestinais podem produzir neurotransmissores capazes de influenciar regiões cerebrais relacionadas à tomada de decisões e às interações sociais.
A ideia de que escolhas e emoções poderiam ser influenciadas também pelo intestino parecia improvável há poucos anos. Hoje, no entanto, o tema passou a ocupar espaço importante nas pesquisas contemporâneas em neurociência.
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(Com informações de Gizmodo)
(Foto: Reprodução/Magnific/photomoon19)












