Criminosos usam TikTok para atrair compradores de conteúdo de abuso sexual infantil

Foram monitorados mais de 30 perfis na rede social e identificados ao menos 35 links que levavam a páginas relacionadas à comercialização desse tipo de material

⚠️ Aviso: esta matéria contém conteúdo sensível sobre abuso sexual infantil. Ao final, veja como denunciar.

TikTok – Uma publicação no TikTok pode ser o primeiro passo para chegar a grupos privados do Telegram onde criminosos anunciam e vendem conteúdo de abuso sexual infantil. Durante semanas, foram monitorados mais de 30 perfis na rede social e identificados ao menos 35 links que levavam a páginas relacionadas à comercialização desse tipo de material.

A estratégia utiliza códigos nos comentários para dificultar a identificação pelas plataformas. Os mesmos códigos aparecem nas mensagens de pessoas interessadas, que os utilizam para sinalizar que procuram esse tipo de conteúdo sem fazer pedidos explícitos.

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Os termos e códigos usados no TikTok para divulgar conteúdo de abuso sexual infantil não serão divulgados nesta reportagem para evitar sua propagação.

A maior parte dos links encontrados levava ao Telegram. Em geral, os endereços continham a palavra invite (“convite”, em inglês), seguida de uma sequência de caracteres. Depois de acessar o endereço, o usuário precisava informar o código para entrar em uma página dentro do aplicativo, onde era apresentada uma prévia do conteúdo.

O contato também podia ocorrer diretamente com os criminosos ou por meio de bots.

Em um dos casos monitorados, os responsáveis pelo esquema incentivavam compradores a compartilhar links no TikTok em troca de acesso gratuito a novos conteúdos. A estratégia fazia com que os próprios interessados contribuíssem para ampliar a divulgação.

De vídeos de gatos a conteúdo gerado por inteligência artificial

As publicações utilizadas para atrair usuários não necessariamente indicavam o que havia por trás delas.

Um dos vídeos acompanhados durante o monitoramento, por exemplo, mostrava apenas um gato dançando. Outros faziam referências mais claras ao conteúdo oferecido, inclusive por meio de vídeos com crianças.

Também havia uma publicação com uma versão criada por inteligência artificial do bilionário Jeffrey Epstein, que dizia ter criado um grupo no qual seria possível “enviar de tudo”.

Apesar da variedade das publicações, havia um elemento recorrente: os comentários apresentavam códigos utilizados para conduzir os interessados até os criminosos.

Em diversos casos, o responsável pela publicação não era quem respondia aos interessados. Outras contas aparentemente relacionadas à prática criminosa participavam das conversas e orientavam usuários a procurar informações na bio dos perfis.

A localização dessas contas não pôde ser confirmada. O TikTok não informa o país de origem dos perfis.

O site Tikip.us, que reúne dados públicos e faz estimativas sobre a localização de contas do TikTok, foi consultado durante o levantamento. Segundo a plataforma, a maioria dos perfis monitorados estaria na Europa, principalmente na Espanha, em Portugal e na Polônia.

O TikTok chegou a bloquear algumas pesquisas quando identificou que as frases procuradas estavam relacionadas a esse tipo de crime. Ainda assim, outros códigos continuavam direcionando usuários a publicações que não haviam sido restringidas.

Como funcionavam as vendas

Depois de deixar o TikTok, o interessado poderia encontrar o material anunciado de diferentes maneiras.

No Telegram, as vendas ocorriam por meio de três formatos:

1. A negociação era feita com um bot, embora uma pessoa também poderia intervir para responder às perguntas dos compradores;
2. A negociação ocorria diretamente com o criminoso, em uma conversa privada;
3. O conteúdo era vendido por meio de sites criados dentro do próprio Telegram, usando os chamados “miniapps”, recursos desenvolvidos com a linguagem de programação JavaScript. Na prática, eles permitem criar e abrir uma página semelhante a um site dentro do aplicativo, sem que o usuário precise sair do Telegram.

Os criminosos anunciam diferentes tipos de conteúdo, incluindo cenas de estupro e material envolvendo adolescentes.

Antes da venda, também costumam disponibilizar amostras gratuitas. A estratégia serve para conquistar a confiança dos interessados e comprovar que os vendedores possuem o material anunciado.

Em uma das negociações acompanhadas, a prévia era enviada em um vídeo autodestrutivo, que desaparecia depois da primeira visualização. Em seguida, o criminoso fornecia uma chave PIX e, após a confirmação do pagamento, enviava os arquivos na própria conversa.

Os valores variam. Em um dos sites monitorados, havia um pacote de US$ 25, cerca de R$ 130, com acesso a um grupo privado que reunia milhares de vídeos. Outros pacotes custavam US$ 11,99, aproximadamente R$ 62, e US$ 17,50, cerca de R$ 90.

Alguns vendedores aceitavam pagamentos em criptomoedas, como bitcoin e ether.

Também foram encontrados canais no Telegram que aceitavam PIX. Em um deles, um pacote com 3 GB de vídeos e fotos era vendido por R$ 10. Outro, com 15 GB, custava R$ 35.

Os grupos anunciavam diferentes categorias de conteúdo de abuso sexual infantil, inclusive material com violência sexual. Um deles afirmava ser um dos maiores do Brasil e dizia receber material de diferentes fontes, além de garantir a confidencialidade dos compradores.

Pagamentos deixam rastros

Investigadores da Polícia Federal ouvidos durante a apuração afirmam que o uso do PIX demonstra a sensação de segurança dos criminosos. Muitos utilizam contas de terceiros, de laranjas ou até de ex-namoradas.

Em uma das conversas, um criminoso que afirma ser brasileiro diz utilizar a conta bancária de uma “menina”. Ele admite que a conta provavelmente será bloqueada, mas afirma ao interessado que a transação não poderá ser rastreada.

Segundo a Polícia Federal, essa afirmação não é verdadeira.

Os pagamentos por PIX deixam registros que podem auxiliar investigações. Os dados da conta utilizada na transação ficam registrados e podem ajudar a polícia a identificar compradores.

Além disso, bancos tradicionais costumam identificar como suspeitas transações consideradas atípicas ou realizadas a partir de diferentes regiões e, nesses casos, podem bloquear as contas.

Número de registros aumentou 23%

A comercialização desse tipo de material ocorre em um contexto de aumento dos registros relacionados à produção, posse e distribuição de conteúdo de abuso sexual infantil no Brasil.

Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados 4.063 casos em 2025, número 23% maior que o registrado no ano anterior, quando foram contabilizados 3.280 casos.

Ainda de acordo com o Anuário, 34,2% dos autores denunciados às polícias civis por crimes relacionados a material de abuso sexual infantil eram adolescentes, o equivalente a cerca de 1 em cada 3.

“É impressionante como, em poucos segundos, foi possível chegar a esse material. Isso mostra como as redes sociais acabam servindo de porta de entrada para diferentes formas de aliciamento”, afirma Cauê Martins, coordenador de Infância e Juventude do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Para Thiago Tavares, presidente da SaferNet Brasil, o TikTok é apenas um dos caminhos utilizados para chegar aos criminosos. Segundo ele, a mesma estratégia aparece em plataformas como X, YouTube e Facebook.

A ONG afirma compartilhar com as plataformas os termos utilizados pelos criminosos para auxiliar na identificação dessa prática.

Recentemente, a SaferNet entregou à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) um levantamento com cerca de 1.093 contas do Telegram com indícios de material de abuso sexual infantil. A organização denuncia há anos casos de exploração sexual de crianças e adolescentes na plataforma.

Nova lei aumenta penas

Desde o início de agosto, uma nova lei passou a prever penas mais duras para crimes envolvendo conteúdo de violência sexual contra crianças e adolescentes.

Para quem produz ou vende esse material, a pena passou a ser de 4 a 10 anos de reclusão, além de multa.

Para quem adquire, possui ou mantém o conteúdo, a punição é de 3 a 6 anos de reclusão e multa.

“A legislação passa a punir também quem solicita ou acessa conteúdos de violência sexual contra crianças e adolescentes em apps de internet, serviços de streaming ou outros meios digitais”, diz o governo.

As novas regras foram sancionadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 6 de agosto de 2026. O texto teve origem em projeto de autoria do deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) e foi aprovado pelo Senado em 7 de julho.

A nova lei define como conteúdo de violência sexual contra crianças e adolescentes qualquer representação, por meio de registro audiovisual, que envolva criança ou adolescente, real ou fictício, em atividades sexuais explícitas, reais ou simuladas, incluindo conteúdos gerados por IA.

Com a mudança, a legislação passa a classificar esse tipo de material como “violência sexual contra criança ou adolescente”, em vez de usar o termo “pornografia”.

A alteração acompanha uma discussão internacional sobre o uso desse termo, considerado por especialistas e organizações insuficiente para descrever a gravidade da violência praticada contra menores de idade.

Para Ana Cláudia Cifali, coordenadora jurídica do Instituto Alana, ONG voltada à proteção dos direitos das crianças, o acesso, a produção e a divulgação desse material são crimes no Brasil. Tanto os responsáveis por esse tipo de conteúdo quanto as plataformas podem ser responsabilizados.

“A proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital tem como base o artigo 227 da Constituição Federal. Embora o ECA Digital tenha reforçado essa proteção, as condutas criminosas já estavam tipificadas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) desde 2008, quando foram estabelecidas penas mais duras para crimes de abuso sexual infantil”, afirma a especialista.

“Desde quem produz até quem vende e quem recebe, toda essa cadeia está passível de ser responsabilizada e deve ser responsabilizada por esse crime”, defende Ana Cláudia Cifali, do Instituto Alana.

O que dizem as empresas

Telegram

“A distribuição de material de abuso sexual infantil é expressamente proibida pelos termos de serviço do Telegram, e dedicamos esforços significativos para erradicá-la de nossa plataforma. Mais de 339.760 grupos e canais relacionados a material de abuso sexual infantil foram removidos em 2026.

Além da moderação humana, o Telegram escaneia todas as mídias enviadas para sua plataforma pública, comparando-as com um banco de dados de hashes de conteúdo de material de abuso sexual infantil previamente removido por moderadores, complementado por conjuntos de dados da Internet Watch Foundation e denúncias de ONGs de todo o mundo.
Como resultado desses esforços, o Telegram praticamente eliminou a disseminação pública de material de abuso sexual infantil em sua plataforma.

O fato de agentes maliciosos precisarem anunciar em outras plataformas significa que eles não conseguem existir publicamente no Telegram como resultado dos esforços de moderação do Telegram. Estatísticas diárias e mais informações: Telegram.org/safety”

TikTok

“Removemos esse conteúdo rapidamente e banimos permanentemente as contas envolvidas. Utilizamos tecnologia de ponta e sistemas robustos para monitorar e remover qualquer conteúdo que tente explorar ou causar danos a jovens.

Não permitimos conteúdos que retratem ou disseminem o abuso ou a exploração sexual infantil. Quando tomamos conhecimento de qualquer conteúdo desse tipo — seja por meio dos nossos próprios métodos de detecção, denúncias da comunidade ou parcerias com a indústria —, agimos imediatamente para removê-lo, banir as contas envolvidas e reportar os casos ao NCMEC (em português: Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas).

Dados do Nosso Relatório de Aplicação das Diretrizes da Comunidade mais recente, do primeiro trimestre de 2026, demonstram a eficácia dos nossos sistemas em fazer cumprir nossas regras. 99,8% dos conteúdos que violaram nossas políticas sobre abuso sexual e físico de jovens foram removidos proativamente da plataforma.”

Meta

“A Meta tem regras contra exploração sexual, abuso e nudez infantil, nudez e atividade sexual de adultos e exploração sexual de adultos. A empresa emprega amplos esforços, incluindo o investimento em tecnologia, para detectar proativamente potenciais violações às suas regras e tomar as medidas cabíveis.”

Como denunciar

Casos de violência contra crianças e adolescentes podem ser denunciados ou encaminhados aos seguintes serviços:

• Polícia Militar – 190: quando a criança está correndo risco imediato;
• Samu – 192: para pedidos de socorro urgentes;
• Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres;
• Qualquer delegacia de polícia;
• Disque 100: recebe denúncias de violações de direitos humanos. A denúncia é anônima e pode ser feita por qualquer pessoa;
• Profissionais de saúde: médicos, enfermeiros, psicólogos, entre outros, precisam fazer notificação compulsória em casos de suspeita de violência. Essa notificação é encaminhada aos conselhos tutelares e à polícia;
• WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656-5008;
• Ministério Público;
• Videochamada em Língua Brasileira de Sinais (Libras).

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(Com informações de g1)
(Foto: Reprodução/Magnific/thanyakij-12)

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