De baterias a genética: as apostas do MIT para o futuro da tecnologia

Levantamento aponta inovações com potencial de transformar setores estratégicos e alerta para a adoção acelerada sem compreensão plena dos impactos
De baterias a genética: as apostas do MIT para o futuro da tecnologia

Futuro da tecnologia – A tradicional lista anual da MIT Technology Review destaca, em sua edição de 2026, dez tecnologias com potencial para provocar mudanças profundas na sociedade nas próximas décadas. Apresentado durante o SXSW, em Austin, nos Estados Unidos, o levantamento reúne avanços em áreas como energia, biotecnologia e inteligência artificial (IA), e reforça um alerta recorrente: a adoção de novas tecnologias costuma acontecer antes da plena compreensão de seus impactos.

De acordo com Niall Firth, editor-executivo da publicação, o objetivo da seleção não é identificar tendências passageiras, mas destacar soluções com escala, potencial e capacidade de alterar a forma como as pessoas vivem e trabalham.

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“Uma tecnologia que muda a vida de poucas pessoas não é um verdadeiro avanço. E uma ideia brilhante que nunca sai do laboratório também não”, afirmou.

Firth também chamou atenção para os efeitos colaterais frequentemente negligenciados no avanço tecnológico. Ele citou como exemplo as redes sociais, que surgiram com a proposta de ampliar conexões, mas acabaram associadas a problemas como impactos na saúde mental de adolescentes e a dificuldade crescente de distinguir fatos de desinformação.

“Não basta perguntar se podemos construir algo. Precisamos perguntar o que acontece quando realmente o construímos”, afirmou.

Entre os destaques da lista está o avanço das baterias de íon-sódio, vistas como alternativa mais barata e abundante às de lítio. Como o sódio pode ser obtido a partir de materiais comuns, como o sal, a tecnologia reduz custos e dependência de cadeias de mineração concentradas. Além disso, oferece maior segurança, com menor risco de combustão e melhor desempenho em altas temperaturas. Apesar da menor densidade energética, empresas como CATL e BYD já investem na produção, com foco inicial em veículos menores e armazenamento de energia para redes elétricas.

Na área de software, a chamada programação generativa também ganha espaço. Ferramentas de IA capazes de escrever código, revisar sistemas e automatizar tarefas já fazem parte do cotidiano de desenvolvedores. Uma pesquisa citada indica que 65% dos programadores utilizam IA regularmente, e estimativas apontam que até 40% do código no GitHub pode ter participação dessas ferramentas. Ainda assim, estudos mostram que os ganhos de produtividade nem sempre são lineares, devido à necessidade de revisão de erros.

“O desenvolvimento de software mudou para sempre”, afirmou Firth.

Outro ponto relevante é o avanço de reatores nucleares de nova geração. Projetos incluem reatores modulares pequenos, microreatores e sistemas com novos combustíveis e refrigerantes, como sais fundidos e metais líquidos. Essas tecnologias prometem maior segurança e eficiência, além de construção mais rápida. O movimento acompanha o aumento da demanda global por energia, impulsionado por data centers, IA, veículos elétricos e climatização, com crescimento estimado entre 3% e 4% ao ano.

A lista também destaca o crescimento dos chamados companheiros de IA; assistentes digitais que simulam interações humanas, incluindo amizade e aconselhamento. Nos Estados Unidos, estudos indicam que 72% dos adolescentes já utilizaram esse tipo de ferramenta. Apesar da popularização, a tecnologia levanta preocupações, como dependência emocional e exposição a conteúdos inadequados, o que já motivou discussões regulatórias.

Na biotecnologia, terapias genéticas personalizadas baseadas em novas versões da tecnologia CRISPR aparecem como uma das apostas mais promissoras. Esses tratamentos permitem corrigir mutações específicas no DNA, como no caso de um bebê tratado com uma terapia desenvolvida sob medida após diagnóstico de uma condição rara. O custo, estimado em cerca de US$ 1 milhão, ainda é elevado, mas a expectativa é de redução ao longo do tempo.

Outro campo emergente envolve a reintrodução de características de espécies extintas em organismos atuais, por meio de engenharia genética. A técnica pode contribuir tanto para a restauração da biodiversidade quanto para o desenvolvimento de espécies mais adaptadas às mudanças climáticas. Pesquisas semelhantes também exploram a inserção de genes antigos em plantas modernas, buscando maior resistência a condições extremas.

A interpretabilidade da inteligência artificial também integra a lista. O campo busca entender como sistemas de IA tomam decisões, já que muitos ainda funcionam como “caixas-pretas”. Avanços recentes permitiram identificar neurônios artificiais ligados a conceitos específicos, com o objetivo de tornar os modelos mais transparentes, seguros e confiáveis.

A engenharia de células-tronco aparece como outro destaque. Cientistas já conseguem reprogramar células adultas para um estado semelhante ao embrionário, possibilitando sua transformação em diferentes tipos celulares. A técnica abre caminho para tratamentos experimentais de doenças como epilepsia e diabetes tipo 1, além de pesquisas sobre a produção de células reprodutivas humanas a partir de células sanguíneas.

No setor espacial, o crescimento das megaconstelações de satélites chama atenção. Com milhares de pequenos satélites em órbita baixa, esses sistemas prometem ampliar o acesso global à internet. Por outro lado, geram preocupações entre cientistas devido à interferência em observações astronômicas, evidenciada por trilhas luminosas registradas em imagens de telescópios.

Por fim, o uso de DNA antigo em aplicações agrícolas e ambientais também integra o levantamento. Pesquisadores têm extraído material genético de organismos antigos para introduzir características em espécies atuais, como maior resistência climática. A técnica pode contribuir tanto para a agricultura quanto para projetos de restauração ecológica.

Para a equipe da publicação, o principal valor da lista não está apenas em antecipar tendências, mas em incentivar o debate sobre seus impactos.

“O ponto não é apenas saber o que vem pela frente”, afirmou a editora. “É garantir que estamos preparados para quando essas tecnologias realmente chegarem.”

 

(Com informações de It Forum)

(Foto: Reprodução/Freepik)

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