Avanço da IA generativa muda lógica do mercado de software corporativo

Ferramentas de IA generativa têm reduzido o custo de desenvolvimento e levando empresas a questionar a necessidade de plataformas SaaS tradicionais

Avanço da IA – O avanço da inteligência artificial generativa começa a provocar mudanças silenciosas, mas profundas, na economia do software corporativo. Com ferramentas capazes de gerar aplicações completas em poucas horas, algumas empresas passam a questionar se ainda vale a pena pagar por plataformas prontas.

Uma análise publicada pela Forrester aponta que a redução drástica no custo de desenvolvimento pode alterar a lógica de consumo de software nas organizações. O pesquisador Frederic Giron relata um episódio que ilustra esse movimento emergente.

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Durante um encontro de desenvolvedores em Hong Kong, ele conversou com o diretor de uma empresa de eletrônicos com cerca de 70 funcionários que decidiu substituir praticamente todo o seu conjunto de softwares corporativos por sistemas criados com inteligência artificial (IA).

Segundo o relato, a companhia iniciou a reconstrução de diversas aplicações internas, incluindo ERP, sistemas de recursos humanos, CRM, helpdesk e até plataformas de e-commerce, utilizando modelos de IA e ferramentas de programação automatizada. A infraestrutura foi baseada em modelos da Anthropic e sistemas de geração de código, consumindo cerca de 250 milhões de tokens por dia.

A decisão começou como uma tentativa de reduzir despesas. Ao eliminar licenças de software e taxas de plataformas SaaS, a empresa conseguiu cortar custos mensais em dezenas de milhares de dólares. No entanto, o executivo relatou que o principal ganho acabou sendo a velocidade de desenvolvimento.

Em um mercado de hardware altamente competitivo, no qual novos produtos podem ser rapidamente copiados por concorrentes, responder com agilidade pode ser determinante. Ao desenvolver ferramentas totalmente alinhadas aos seus fluxos internos, a empresa passou a operar com menos fricção do que quando utilizava softwares padronizados voltados para milhares de clientes.

IA muda a forma de construir sistemas

Um dos exemplos citados por Giron envolve a criação de um sistema de gestão de recursos humanos. Em vez de contratar fornecedores ou iniciar um processo de avaliação de plataformas disponíveis no mercado, o executivo pediu que a gerente de RH descrevesse suas rotinas e processos em uma entrevista com um modelo de IA.

Durante cerca de duas horas, o sistema registrou informações sobre controle de presença, gestão de férias, integração de novos funcionários e geração de relatórios internos. A partir desse material, a inteligência artificial estruturou os requisitos do sistema e organizou as tarefas de desenvolvimento em um quadro de trabalho.

Dois dias depois, a empresa já possuía um sistema funcional.

Para o analista da Forrester, o episódio revela uma mudança estrutural: criar software está se tornando cada vez mais rápido e barato. O verdadeiro desafio passa a ser definir o que realmente precisa ser construído.

Segundo ele, muitas organizações ainda não possuem uma visão clara de seus próprios processos internos. Empresas capazes de enxergar suas operações como fluxos de decisões, tarefas e interações têm mais facilidade para transformar essas atividades em aplicações digitais.

Giron descreve essa abordagem como o conceito de “negócio como software”, em que os sistemas passam a refletir diretamente a forma como a organização funciona.

Pressão crescente sobre empresas de SaaS

Essa transformação pode gerar impactos relevantes para empresas que comercializam software corporativo por meio de assinaturas.

Aplicações que oferecem principalmente automação de fluxos de trabalho simples ou configurações básicas podem enfrentar maior pressão competitiva. Se usuários conseguem reproduzir grande parte do valor dessas ferramentas em poucos dias utilizando inteligência artificial, o argumento para pagar licenças recorrentes tende a enfraquecer.

Por outro lado, plataformas que incorporam conhecimento profundo de setores específicos, como regras regulatórias, conformidade jurídica ou práticas consolidadas de mercado, ainda possuem espaço para preservar sua relevância.

Sistemas complexos de gestão corporativa, por exemplo, costumam incorporar anos de experiência acumulada em diferentes mercados e jurisdições. Esse tipo de conhecimento especializado é mais difícil de reproduzir rapidamente com ferramentas automatizadas.

Ainda assim, Giron alerta que a pressão competitiva sobre o setor deve aumentar à medida que o custo de geração de código continua caindo.

Novos desafios para líderes de tecnologia

Para CIOs e líderes de tecnologia, o avanço da IA na criação de software também abre um novo conjunto de desafios.

Um dos principais pontos é a governança. Aplicações geradas automaticamente por inteligência artificial podem entrar em produção sem que haja clareza sobre responsabilidade, manutenção ou riscos de segurança.

Outro desafio envolve o chamado “débito técnico”. Sistemas criados rapidamente podem funcionar no curto prazo, mas se tornar difíceis de manter caso ninguém compreenda plenamente como o código foi produzido.

Nesse cenário, Giron sugere que CIOs revisem seus portfólios de aplicações para identificar sistemas cujo valor está concentrado principalmente na automação de processos simples. Essas ferramentas podem ser candidatas à substituição ou reconstrução com apoio de IA.

Além disso, as organizações precisarão desenvolver novas capacidades internas para mapear seus próprios processos e decidir quais atividades devem ser padronizadas e quais exigem customização.

Segundo o analista, a velocidade da evolução tecnológica pode criar um descompasso entre aquilo que já é possível construir com inteligência artificial e o que as empresas conseguem adotar com segurança.

É justamente nesse espaço, entre a capacidade técnica e a maturidade organizacional, que deve ocorrer uma das próximas grandes transformações da indústria de software corporativo.

(Com informações de It Forum)

(Foto: Reprodução/FreePik/DcStudio)

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