Aviação elétrica – Durante o táxi até a pista, a hélice deixa de girar quando o acelerador é reduzido, situação que, em um avião convencional de pequeno porte, normalmente indicaria um problema no motor. Porém, nesse caso, trata-se de uma característica natural da aeronave.
Movido por um sistema totalmente elétrico, o avião funciona de maneira semelhante a um carro elétrico: quando não há necessidade de potência, o motor permanece inativo. Assim que o acelerador é novamente acionado, a hélice volta a girar e a aeronave decola rapidamente, quase sem produzir ruído.
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O Pipistrel Velis Electro, modelo de dois lugares, tornou-se a primeira aeronave elétrica certificada para treinamento de pilotos. Além da operação silenciosa, o avião simplifica a preparação para o voo. Em vez de uma extensa sequência de verificações mecânicas exigidas por motores a combustão, basta acionar quatro interruptores para iniciar a operação.
A manutenção também tende a ser mais econômica, graças ao número reduzido de componentes móveis. Outro diferencial é a ausência de emissões diretas durante o voo, especialmente quando as baterias são recarregadas com energia de fontes renováveis. O carregamento completo leva pouco mais de uma hora.
Ao retornar para pouso no Aeroporto de Blackbushe, no sudoeste de Londres, é possível observar a estrutura do Aeroporto de Farnborough, sede do tradicional salão aeronáutico realizado a cada dois anos. Na edição iniciada em 20 de julho deste ano, a sustentabilidade foi um dos principais temas discutidos.
Hoje, a aviação responde por aproximadamente 2,5% das emissões globais de dióxido de carbono (CO₂). Entretanto, especialistas apontam que seu impacto climático é maior devido a outros poluentes liberados em grandes altitudes, como os óxidos de nitrogênio, que contribuem para o aquecimento da atmosfera. Diante desse cenário, cresce a percepção de que a meta do setor de atingir emissões líquidas zero até 2050 dificilmente será alcançada.
Alcance ainda é o principal desafio
Embora representem um avanço importante, aeronaves totalmente elétricas como o Electro ainda têm alcance reduzido. Fabricado na Eslovênia pela Pipistrel, empresa pertencente ao grupo aeroespacial americano Textron, o modelo consegue permanecer no ar por cerca de 50 minutos, considerando também a reserva obrigatória para emergências.
Mesmo com essa limitação, o avião desperta interesse crescente, especialmente entre escolas de aviação. Segundo a empresa de aviação sustentável NEBOair, responsável pelo aluguel dessas aeronaves, a procura vem aumentando. Paralelamente, a companhia trabalha na implantação de uma rede de estações de recarga para ampliar as possibilidades de operação.
A expectativa é que os avanços da indústria automotiva também beneficiem a aviação. As baterias utilizadas atualmente poderão ser substituídas por versões mais modernas no futuro, aumentando gradualmente a autonomia das aeronaves. Ainda assim, especialistas consideram improvável que essa tecnologia alcance, em curto prazo, a capacidade necessária para transportar muitos passageiros em longas distâncias.
Outro obstáculo está no próprio peso das baterias. Diferentemente dos aviões movidos a combustível, que ficam mais leves à medida que o combustível é consumido, as baterias mantêm o mesmo peso durante todo o voo.
Além disso, normas da aviação exigem combustível suficiente para permitir espera em caso de pista indisponível ou até desvios para aeroportos alternativos. Para atender essas exigências apenas com baterias, seria necessário instalar conjuntos extremamente pesados, comprometendo significativamente a capacidade de transporte.
Modelos híbridos ganham espaço
Diante dessas limitações, fabricantes passaram a concentrar esforços em aeronaves híbridas, que unem motores elétricos e sistemas convencionais de combustão.
Grande parte dos aviões comerciais utiliza turbinas a gás, seja em motores a jato ou turboélices. A tendência é que os primeiros modelos híbridos voltados ao transporte de passageiros sejam justamente turboélices destinados a rotas regionais.
Na Califórnia, a Heart Aerospace desenvolve o ES-30, aeronave híbrido-elétrica com capacidade para 30 passageiros. O projeto prevê autonomia de aproximadamente 200 quilômetros utilizando apenas eletricidade. Com o auxílio do sistema híbrido, esse alcance pode chegar a cerca de 800 quilômetros.
Após concluir a fase de testes em solo, a empresa prepara o voo do demonstrador tecnológico, equipado exclusivamente com dois motores elétricos. Caso o teste seja bem-sucedido, será a maior aeronave movida apenas por baterias a decolar.
Na versão comercial, o projeto incorpora uma turbina a gás responsável por gerar eletricidade para alimentar os motores elétricos. Esse conceito, conhecido como híbrido em série, mantém as hélices sempre acionadas por motores elétricos, enquanto a turbina atua apenas como geradora de energia quando necessário.
Segundo a fabricante, essa configuração reduz o consumo de combustível e as emissões, além de permitir custos operacionais cerca de 40% inferiores aos dos atuais jatos regionais.
Diferentes soluções tecnológicas
Outra estratégia está sendo desenvolvida pela GE Aerospace, em parceria com a Nasa (Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço, na sigla em inglês).
Nesse caso, a proposta utiliza um sistema híbrido paralelo. O projeto adiciona um motor elétrico a um turboélice convencional para fornecer potência extra em momentos de maior demanda, como durante a decolagem e a subida.
Um avião regional Saab adaptado, que substituiu um dos motores convencionais pela versão híbrida experimental, cruzou o Atlântico Norte para participar da feira de Farnborough.
eVTOLs também avançam
Outro segmento que desperta expectativa é o dos eVTOLs — aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical com dimensões semelhantes às de um automóvel.
Esses veículos são apontados como possíveis substitutos dos helicópteros em determinadas operações e também como alternativa para serviços de táxi aéreo em trajetos urbanos e regionais de curta distância.
Durante o evento em Farnborough, um modelo produzido pela britânica Vertical Aerospace tornou-se o primeiro eVTOL a realizar demonstrações de voo na feira. A empresa também iniciou o desenvolvimento de uma versão híbrida da aeronave, buscando ampliar seu alcance operacional.
Embora diversos desafios tecnológicos ainda precisem ser superados, os avanços recentes indicam que a eletrificação da aviação entrou definitivamente na agenda da indústria e deve continuar evoluindo nos próximos anos.
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(Com informações de Folha de S.Paulo)
(Foto: Reprodução/Magnific)












