Saúde mental no trabalho – A estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026 colocou em discussão um tema que ultrapassa os gramados e faz parte da rotina de milhões de trabalhadores: a ansiedade diante da pressão por resultados. Após o empate com o Marrocos, jogadores e comissão técnica apontaram o fator emocional como um dos elementos que impactaram o desempenho da equipe, levantando o debate sobre como a pressão influencia na entrega de resultados.
Metas desafiadoras, avaliações constantes, medo de cometer erros e a necessidade de manter alta performance criam um ambiente que pode afetar diretamente a saúde mental e a produtividade.
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Como a pressão afeta o cérebro e o desempenho
A forma como cada pessoa interpreta situações de pressão tem papel decisivo nos resultados obtidos. Diante de um mesmo desafio, alguns indivíduos encaram o cenário como uma oportunidade de crescimento, enquanto outros o percebem como uma ameaça.
Essa diferença de interpretação produz impactos concretos no funcionamento do cérebro. Quando o ambiente é visto como ameaçador, a mente direciona parte de sua energia para mecanismos de autoproteção. Como consequência, diminuem a concentração, a criatividade e a capacidade de tomar decisões com segurança.
No ambiente de trabalho, isso pode se manifestar por meio de comportamentos como procrastinação, excesso de perfeccionismo, dificuldade de inovar e medo constante de avaliações negativas. O resultado é que profissionais qualificados podem apresentar desempenho inferior ao seu potencial quando submetidos a elevados níveis de estresse.
“Duas pessoas podem trabalhar sob a mesma meta, na mesma equipe e com o mesmo gestor, mas, enquanto uma mantém estabilidade emocional, a outra entra em estado contínuo de alerta”, afirma o pesquisador da USP, Gustavo Drago.
Cultura da cobrança permanente
A pressão por resultados não é novidade. O que mudou nos últimos anos foi a intensidade com que ela passou a acompanhar trabalhadores e gestores.
A expansão das tecnologias digitais e a hiperconectividade reduziram os limites entre jornada profissional e vida pessoal. Mensagens fora do expediente, indicadores de desempenho em tempo real e a exposição constante nas redes sociais criaram uma sensação de vigilância contínua.
Esse cenário contribui para o aumento da autocobrança e da insegurança. Em organizações onde o erro é tratado como fracasso, o medo de falhar tende a dominar, dificultando processos de aprendizagem e desenvolvimento profissional.
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a exigir maior atenção aos riscos psicossociais relacionados ao trabalho, evidencia a necessidade de empresas adotarem medidas preventivas para enfrentar problemas como sobrecarga, assédio e pressão excessiva.
Uma das principais diferenças entre o esporte profissional e o ambiente corporativo está na preparação para lidar com situações de pressão.
Atletas de alto rendimento não são treinados apenas tecnicamente. O desenvolvimento psicológico faz parte da rotina, com estratégias voltadas para controle emocional, fortalecimento da concentração e recuperação após erros ou derrotas.
É comum a prática das chamadas técnicas de visualização, que ajudam a antecipar cenários desafiadores, e exercícios voltados para direcionar a atenção ao que está sob controle do atleta.
No ambiente corporativo, essas estratégias começam a ganhar espaço. Antes de uma apresentação importante, negociação ou entrevista, por exemplo, a preparação mental pode reduzir a sensação de ameaça e aumentar a confiança.
Da mesma forma, concentrar esforços na qualidade da execução, e não apenas no resultado final, ajuda a diminuir a ansiedade e melhorar a performance.
Frustrações fazem parte do processo
Atletas lidam frequentemente com derrotas, eliminações e convocações não alcançadas. No mercado de trabalho, situações como promoções negadas, metas não atingidas ou oportunidades perdidas também podem gerar impactos emocionais significativos.
O problema surge quando a frustração deixa de ser encarada como um episódio temporário e passa a definir a percepção que a pessoa tem de si mesma. Essa mudança pode afetar a autoestima, aumentar a ansiedade e contribuir para o adoecimento mental.
Descanso é estratégia de desempenho
Enquanto no esporte o descanso é tratado como parte fundamental da preparação, muitas empresas ainda associam produtividade à disponibilidade constante.
Atletas contam com acompanhamento especializado para equilibrar períodos de esforço e recuperação. O objetivo é evitar a queda de rendimento e reduzir riscos de esgotamento físico e emocional.
No ambiente corporativo, porém, jornadas prolongadas e dificuldades para desconectar do trabalho mantêm muitos profissionais em estado permanente de vigilância. Os efeitos aparecem gradualmente na forma de ansiedade, insônia, dificuldade de concentração, perda de criatividade e aumento do risco de burnout.
Saúde mental e produtividade caminham juntas
As discussões sobre saúde mental no trabalho ganharam relevância nos últimos anos justamente porque os impactos da pressão excessiva deixaram de ser percebidos apenas como questões individuais e passaram a influenciar resultados.
Hoje, cada vez mais empresas reconhecem que ambientes saudáveis favorecem melhores resultados, reduzem afastamentos e contribuem para relações de trabalho mais equilibradas.
A experiência do esporte de alto rendimento mostra que a performance não depende exclusivamente da capacidade de suportar pressão. Ela está diretamente relacionada à preparação emocional, à possibilidade de recuperação e à construção de ambientes que ofereçam suporte para que as pessoas desenvolvam todo o seu potencial.
“Muitas organizações ainda estão centradas na ideia de sucesso imediato, e não de evolução contínua. (…) O cérebro humano não foi feito para operar continuamente sob ameaça”, conclui o sócio-líder de Auditoria da CLA Brasil, Thiago Brehmer.
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(Com informações de g1)
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