Nova IA chinesa pode testar segurança digital com modelo aberto ao público

Novo modelo poderá ser usado e modificado livremente, reacendendo a discussão sobre os riscos e benefícios da inteligência artificial

Segurança digital – O lançamento de um novo modelo de inteligência artificial (IA) da empresa chinesa Z.ai deve reacender uma discussão que há anos divide pesquisadores: até que ponto sistemas avançados de IA devem ser disponibilizados livremente ao público.

Chamado GLM 5.3, o modelo está previsto para ser lançado nesta sexta-feira (27) como um software de “pesos abertos”. Na prática, isso significa que qualquer pessoa poderá utilizar a tecnologia e modificar os pesos do sistema, os cálculos matemáticos que determinam seu funcionamento.

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A discussão ganhou força após um episódio envolvendo a OpenAI em meados de julho. Enquanto a empresa testava novas tecnologias de inteligência artificial, seus sistemas excepcionalmente poderosos escaparam de ambientes digitais isolados, encontraram um caminho até a internet e invadiram uma plataforma de IA chamada Hugging Face.

Para pesquisadores e especialistas em cibersegurança, o episódio serviu como demonstração de que sistemas de IA estão cada vez mais capazes de identificar e explorar vulnerabilidades em softwares. Ao mesmo tempo, também revelou que essas tecnologias podem apresentar comportamentos que nem mesmo seus criadores pretendem.

A OpenAI só percebeu que seus sistemas haviam agido por conta própria depois que o Hugging Face revelou publicamente a invasão e notificou as autoridades.

“Foi um divisor de águas para a segurança”, disse George Kurtz, CEO da empresa de segurança CrowdStrike, que assessorou a OpenAI enquanto a companhia tentava compreender o ataque. “Foi um incidente muito público que evidencia claramente a natureza autônoma do que esses modelos são capazes de fazer.”

Pouco depois, duas concorrentes nacionais da OpenAI, Anthropic e Meta, revelaram que seus sistemas haviam apresentado comportamento semelhante.

O risco dos pesos abertos

A disponibilização do GLM 5.3 em formato de pesos abertos coloca no centro do debate uma característica que diferencia esse tipo de tecnologia de sistemas com barreiras de proteção controladas diretamente pelas empresas.

Quando uma companhia como a Z.ai libera os pesos de seu modelo, usuários podem ajustá-los e, potencialmente, remover mecanismos de proteção que impedem determinadas utilizações.

Isso cria uma situação ambígua. A mesma tecnologia pode ser empregada para invadir uma rede de computadores ou para identificar e corrigir vulnerabilidades antes que sejam exploradas por criminosos.

“Os modelos de pesos abertos têm um papel muito importante a desempenhar”, afirmou Dan Lahav, CEO da Irregular, empresa de cibersegurança cujas tecnologias foram usadas pela OpenAI para testar novos sistemas de IA.

O próprio episódio envolvendo o Hugging Face mostrou esse potencial. Enquanto tentava se defender dos ataques de julho, a plataforma encontrou limitações ao buscar auxílio de sistemas da Anthropic, que recusaram pedidos de ajuda por causa de suas barreiras de proteção.

O Hugging Face recorreu então ao GLM 5.2, modelo aberto anterior da Z.ai.

IA também pode reforçar a defesa

Apesar das preocupações com a chegada do GLM 5.3, parte dos especialistas avalia que o cenário pode não ser tão alarmante quanto parece.

Segundo essa visão, empresas e indivíduos também podem utilizar sistemas de IA para fortalecer sua segurança. Se uma tecnologia consegue localizar uma brecha e explorar uma vulnerabilidade, ela também pode ser utilizada para identificar o problema e corrigi-lo.

Outro argumento é que modelos de IA disponíveis publicamente já apresentam comportamentos semelhantes há meses ou até anos. Embora tenham avançado significativamente na capacidade de encontrar vulnerabilidades, especialistas afirmam que não houve aumento significativo nos ataques cibernéticos.

Além disso, comportamentos inesperados podem acabar ajudando equipes de segurança a identificar atividades suspeitas dentro de suas redes. Mesmo com o avanço das técnicas de furtividade, sistemas de IA ainda tendem a disparar alarmes quando realizam determinadas ações.

“As pessoas falam do incidente com o Hugging Face como resultado desse modelo maluco e sem barreiras de proteção que a OpenAI ainda não disponibilizou ao público. Mas, em nossa pesquisa, observamos esse tipo de comportamento desde o GPT-4⁠”, disse Rishi Jha, pesquisador de IA da Universidade Cornell, referindo-se a um sistema lançado pela OpenAI em 2024.

 

Disputa entre ataque e defesa

Para Jha e outros especialistas, mesmo que incidentes desse tipo se tornem mais frequentes, a disseminação de ferramentas defensivas baseadas em IA pode ajudar a equilibrar a disputa.

Nesse cenário, modelos de pesos abertos como o GLM 5.3 permitiriam que um número maior de pessoas e organizações tivesse acesso a recursos de defesa, em vez de concentrá-los apenas em empresas selecionadas.

A expectativa também envolve o desenvolvimento de software. Conforme os sistemas de IA avancem na geração de código, especialistas acreditam que eles poderão ajudar desenvolvedores a criar serviços online que já sejam concebidos com menos vulnerabilidades.

Pesquisadores também trabalham em tecnologias capazes de utilizar técnicas matemáticas para “verificar” códigos gerados por IA, com o objetivo de evitar erros lógicos que possam posteriormente ser explorados por hackers.

Para Lahav, esse avanço pode fazer com que a inteligência artificial tenha um papel predominantemente defensivo na cibersegurança.

“Há fortes motivos para otimismo”, afirmou. “Com o tempo, a IA construirá defesas de cibersegurança tão robustas que o cenário acabará, de fato, melhorando.”

 

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(Com informações de Folha de São Paulo)

(Foto: Reprodução/Magnific)

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