Vacina personalizada – O diagnóstico de câncer terminal em um animal de estimação levou o empreendedor de tecnologia australiano Paul Conyngham a buscar uma solução pouco convencional. Com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial, ele desenvolveu o que cientistas descrevem como a primeira vacina personalizada de mRNA para um cão.
A iniciativa surgiu após a cadela Rosie, uma vira-lata mistura de Staffordshire Bull Terrier com Shar Pei, ser diagnosticada com câncer de mastócitos em estágio avançado. Diante do prognóstico de poucos meses de vida, Conyngham decidiu recorrer à tecnologia para tentar encontrar uma alternativa de tratamento.
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Sem formação em biologia, mas com 17 anos de experiência em análise de dados, o engenheiro utilizou o ChatGPT para estruturar um plano de ação. Em conversas com o chatbot, ele explorou possíveis caminhos terapêuticos e recebeu como sugestão investigar estratégias de imunoterapia.
A partir dessas orientações, Conyngham foi direcionado ao Centro Ramaciotti de Genômica da University of New South Wales (UNSW), na Austrália, onde iniciou um processo de análise genética do tumor.
O desenvolvimento da vacina envolveu três etapas principais. A primeira foi o sequenciamento de DNA, que comparou o material genético saudável de Rosie com o DNA do tumor para identificar mutações. Em seguida, Conyngham utilizou o AlphaFold, programa de inteligência artificial desenvolvido pela Google DeepMind, para localizar proteínas alteradas pelas mutações e apontar possíveis alvos terapêuticos.
Com os dados analisados pela IA, ele elaborou uma fórmula de cerca de meia página que serviu como base para a criação da vacina experimental de mRNA.
A persistência do empreendedor acabou convencendo cientistas a sintetizar o composto. Rosie recebeu a vacina experimental em dezembro.
Segundo os pesquisadores envolvidos, o resultado surpreendeu: o tumor, que tinha o tamanho de uma bola de tênis, encolheu cerca de 50%. O efeito foi descrito como “mágico” pelos cientistas que acompanharam o caso.
O futuro da medicina personalizada
A história de Rosie vai além de um caso isolado envolvendo um animal de estimação. Para pesquisadores, o episódio funciona como uma prova de conceito para a oncologia humana.
A tecnologia de mRNA, a mesma utilizada nas vacinas contra a COVID-19, permite instruir as células do corpo a reconhecer e combater proteínas específicas associadas ao câncer. Por isso, é considerada uma das apostas da medicina moderna no desenvolvimento de tratamentos personalizados.
Para o professor Pall Thordarson, diretor do Instituto de RNA da University of New South Wales, o experimento conduzido por Conyngham aponta para uma mudança importante no desenvolvimento de terapias.
Segundo ele, o feito está “democratizando o processo” de design de medicamentos, ao demonstrar que ferramentas de inteligência artificial podem acelerar etapas que tradicionalmente levariam anos de testes clínicos.
(Com informações de Olhar Digital)
(Foto: Reprodução/Freepik/chamithamalkagraphics)












