Trabalhador brasileiro – Para desgosto de quem havia tirado o fim de semana para descansar, a Folha manchetou, no domingo passado, que o “brasileiro trabalha menos que a média mundial” — e atribuiu a conclusão, no papel, no site e nas redes, a “ranking”/”rankings” a partir de um estudo do economista Daniel Duque, do FGV Ibre.
A formulação publicada no jornal, por si só, já seria capaz de gerar questionamento. Mas havia mais pontos inflamáveis, como os topos dos rankings.
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Num deles, Butão, Sudão e Emirados Árabes eram primeiro, segundo e terceiro lugares em “horas trabalhadas semanais”, sem contexto adequado. “O ranking traz como líderes países onde a legislação trabalhista não é considerada exemplo a ser seguido. Isso nem sequer foi levado em conta”, observou uma leitora.
O jornal também reproduzia a ideia de que o brasileiro “nem pode ser considerado particularmente esforçado”. Isso tudo no meio da discussão, já acalorada, sobre escala 6×1 e projetos de redução de jornada laboral.
A frase foi colocada em dúvida por muitos leitores e ofendeu outros tantos. Um deles escreveu: “Então, o trabalhador do Butão é mais esforçado que o brasileiro? O que isso significa? O trabalhador da Folha é mais preguiçoso? Não é tão empenhado assim?”
Rafael Cariello, repórter especial da Folha que assina o texto, reconhece que houve problemas. “Primeiro, deixe-me admitir um erro que cometi logo na abertura do texto da reportagem. Eu não devia ter escrito a segunda frase do primeiro parágrafo. A frase dizia sobre o trabalhador brasileiro: ‘Nem pode ser considerado particularmente esforçado’, em comparação com trabalhadores de outros países, a partir dos critérios da pesquisa do Daniel Duque. Embora mais tarde na reportagem eu vá explicar o que entendo por ‘esforço’, fazendo referência aos cálculos do Duque, a frase dita assim, logo no início do texto, sem explicação ou qualificação maior, é moralizante. Pode ter um efeito ofensivo sobre o leitor, e eu vi que teve. Faço aqui um pedido de desculpas”, afirma ele.
“Até porque o esforço não se mede apenas no sentido técnico tratado mais à frente no texto. Ele se mede pelo tempo perdido no trânsito, dedicado ao trabalho doméstico e aos estudos, pelo menos —o que infelizmente eu só deixo claro no segundo texto da edição, sobre o trabalho feminino”, diz o repórter.
Houve, da parte do jornal (nunca é demais lembrar que, da pauta à edição, o trabalho é coletivo), também um problema sério de tradução. Assim como “esforço”, “esperado” tinha sentido próprio e “ranking” não seria bem um ranking. Mas as tabelas tipo as de campeonato dificultavam a conclusão de que não havia ali um “pódio”.
O economista Daniel Duque, autor do levantamento, afirma que “não existe juízo de valor” da parte dele ou do estudo. “As pessoas e a sociedade têm escolhas legítimas em si. Uma sociedade pode preferir mais ou menos lazer, não há nada de errado com isso”, afirma, a respeito de outro ponto polêmico do texto da Folha, segundo o qual, “para Duque, o que provavelmente explica o desvio brasileiro é uma questão cultural, uma preferência por maior quantidade de lazer” (e mais uma palavra ambígua: “desvio”). “Esse é um estudo de mensuração”, define Duque.
Autor da coluna Econometria Fácil, na Folha, Victor Rangel entrou no debate via Instagram, ainda no domingo. Ele criticava as conclusões e informava que replicara a análise de Duque, com os mesmos dados, “e o resultado se inverteu completamente”.
Mas aí também havia problemas, porque a checagem de Rangel na realidade não replicava a análise. Alertado sobre a questão pelo repórter e pelo pesquisador, Rangel, mais tarde, publicou outro vídeo, dessa vez na Folha, em que sustentava que “a conversa está longe de uma conclusão”. “Quando soltei o texto da Folha os resultados foram, sim, replicados, mas quando soltei meu vídeo no Instagram, um dia antes, eu realmente tinha feito algo diferente”, diz.
Sobre a necessidade de sinalizar essas mudanças, o que não foi feito, ele responde: “Concordo que, por transparência, acho que vale vídeo viralizou, apesar de não ser para a Folha”. Mas afirma que “as conclusões são as mesmas”.
No estudo de Duque, publicado após a reportagem, ele inclui resposta a Rangel e afirma que o exercício do colega “pode gerar interpretação enganosa”.
Além do problema vocabular e da polêmica acadêmica, o material revela um olhar viciado do jornal para a questão trabalhista.
A Folha deixou em segundo plano a parte do estudo que mostrava que as brasileiras “se aproximam de padrão mundial de horas trabalhadas”. Num texto menor e mais escondido de Cariello, duas histórias contavam tantas outras.
Sara, 24, trabalha desde os 14, “gasta uma hora de ida, outra de volta para casa, numa escala 6×1” e cursa a segunda faculdade. Raphaela, 23, trabalha no telemarketing mais de oito horas por dia e faz hora extra. Gasta mais de três horas nos trajetos de ida e volta.
O padrão de Sara e Raphaela merecia um olhar mais detido. O que dados sobre mulheres e arranjos trabalhistas no país contam a respeito dos apuros demográficos de primeiro mundo em que o Brasil se meteu antes de fazer o proverbial bolo crescer?
Pergunta, aliás, não falta. Como a eleição de 2026 despertou a pauta, dormente há décadas nos escaninhos da esquerda? O que viu nela o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), até aqui insuspeito de apoio à revolução proletária? Como esses interesses se relacionam com a disparada dos trabalhadores PJ, a queda no número de empregadores ou o sonho de ter negócio próprio? É bastante trabalho.
Por Alexandra Moraes – Ombudsman, Jornalista e quadrinista, é ombudsman da Folha. Já foi secretária-assistente de Redação, editora de Diversidade e editora-adjunta de Especiais e Ilustrada
*Texto publicado originalmente na Folha de S. Paulo
(Foto: Reprodução/Freepik)












