Corrida por IA – O Brasil pode enfrentar um cenário de crescente dependência de tecnologia estrangeira em uma das novas fronteiras da inteligência artificial. Um levantamento do escritório Kasznar Leonardos, especializado em propriedade intelectual, indica que o país possui participação ainda muito limitada em patentes relacionadas à On-device AI, tecnologia capaz de executar sistemas de inteligência artificial diretamente em aparelhos como smartphones com reconhecimento facial ou sistemas de assistência à condução em veículos — recursos considerados estratégicos na disputa global por inovação.
Segundo Tarso Mesquita Machado, engenheiro eletrônico e sócio do escritório responsável pelo estudo, o quadro nacional é desfavorável para a indústria brasileira. De acordo com ele, o país tende a atuar como mero adotante das tecnologias, incorporando soluções já desenvolvidas e protegidas por empresas estrangeiras.
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Com isso, o número de patentes relacionadas à IA embarcada no Brasil permanece reduzido e, quando existem registros, eles geralmente pertencem a multinacionais que possuem operações no país.
“No Brasil, os depósitos são majoritariamente concentrados em empresas estrangeiras, sobretudo norte-americanas e europeias, como Qualcomm, Intel, Microsoft e Philips”, observa o engenheiro eletrônico.
A lacuna fica evidente também nos números de registros ao longo dos anos. O primeiro depósito isolado ocorreu em 2016, antes mesmo de o mercado ganhar maturidade. Nos anos seguintes, não houve continuidade significativa. Apenas em 2021 surgiram dois novos registros. Em 2022, foram cinco depósitos, e em 2023 o total chegou a seis.
Corrida global acelera, liderada pela Ásia
Esse cenário reforça o risco de o Brasil ter de pagar royalties para utilizar tecnologias fundamentais da nova geração de inteligência artificial — sistemas capazes de funcionar localmente nos dispositivos, sem depender permanentemente de conexão com a internet.
Enquanto o país avança lentamente, a chamada On-device AI — também conhecida como edge AI — tem se tornado prioridade estratégica em várias regiões do mundo. O estudo aponta que empresas asiáticas lideram a corrida tecnológica.
Para se ter uma dimensão do avanço global, o número de patentes saltou de 1.450 em 2023 para mais de 2.400 em 2024, crescimento de cerca de 65% em apenas um ano.
Apesar da expansão acelerada, os volumes ainda são considerados relativamente pequenos no universo mais amplo das tecnologias digitais, justamente por se tratar de um campo emergente e em rápida evolução.
Entre os principais depositantes estão companhias asiáticas, incluindo a Samsung, além de universidades de alto nível que compartilham espaço com empresas no topo do ranking de inovação.
Esse modelo evidencia uma estratégia nacional coordenada, especialmente na China, onde empresas e instituições acadêmicas atuam de forma integrada no desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial.
No cenário internacional, especialistas apontam que a liderança tecnológica dependerá da capacidade de integrar três pilares fundamentais: hardware, software e dados.
Vantagens da inteligência artificial no próprio dispositivo
Executar sistemas de IA diretamente no aparelho traz benefícios importantes para usuários e empresas. Entre os principais estão:
• Menor latência, permitindo respostas praticamente instantâneas;
• Funcionamento offline, reduzindo dependência de servidores em nuvem e custos de infraestrutura;
• Maior privacidade, já que dados sensíveis — como voz, imagens ou informações de saúde — podem permanecer no próprio dispositivo sem serem enviados a servidores externos.
Impacto no mercado de eletrônicos
A consolidação dessa tecnologia também deve influenciar profundamente o desenvolvimento de produtos eletrônicos e a engenharia de sistemas.
Segundo projeções da Gartner, computadores equipados com chips dedicados para inteligência artificial — conhecidos como AI PCs — devem representar 55% das vendas globais de computadores até 2026.
No mercado de smartphones, a International Data Corporation (IDC) estima que mais de 900 milhões de aparelhos com IA embarcada sejam vendidos anualmente até 2028.
Debate regulatório e critérios de patente
No Brasil, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) já discute a padronização de critérios para avaliar patentes relacionadas à inteligência artificial.
A tendência é exigir que as invenções apresentem um “efeito técnico” claro, como melhorias no consumo de energia ou no desempenho do hardware, evitando registros baseados apenas em resultados algorítmicos considerados abstratos.
Dependência tecnológica pode afetar custos
A escassez de propriedade intelectual nacional nesse campo tende a ampliar a dependência do Brasil em relação a tecnologias externas. Os efeitos já começam a aparecer no mercado.
Relatórios recentes da IDC apontam para uma escassez global de chips de memória impulsionada pela expansão da inteligência artificial. Como consequência, smartphones e computadores podem ficar até 8% mais caros ao longo de 2026.
Sem controle sobre patentes estratégicas e dependente da importação de componentes, a indústria brasileira tende a recorrer ao licenciamento de tecnologias estrangeiras para produzir dispositivos inteligentes. Isso significa que empresas globais não apenas capturam parte das receitas do mercado, como também passam a influenciar padrões tecnológicos e modelos de uso adotados no país.
(Com informações de TI Inside)
(Foto: Reprodução/Freepik/DC Studio)












